Quem é o “Cantô”?

Os shows sempre foram um dos formatos mais comuns de contemplar a performance dos artistas, em sua forma mais “fiel” em relação às plataformas digitais de áudio e audiovisuais. Faz parte do cotidiano brasileiro e corresponde ao quarto maior percentual de consumo de atividade cultural brasileira no ano de 2018 (JLeiva, 2018). O artista, que no espetáculo assume a característica de “produto”, tem por sua responsabilidade a função de ser o principal comunicador durante a apresentação, onde as ferramentas tecnológicas mediam as possíveis interações. Sendo a aura da presença do artista o centro das atenções em um show, é possível reproduzi-la sem o artista? Veremos adiante.


O termo “holograma” que usaremos no texto diz respeito à forma de projeção de um objeto em 3D em superfícies reflexivas, utilizadas, até então, nos shows.


O fenômeno cultural/musical japonês, a Hatsune Miku, que surgiu através de um programa de software de áudio trouxe uma nova perspectiva aos shows no Japão. A “cantora” (que na verdade é um pacote de vozes editáveis de um software chamado Vocaloid), teve sua fama na internet, em meados de 2007, ao cantar a música “levan Pollka”. As músicas são produzidas por qualquer pessoa (desde que tenha o pacote de voz da Hatsune) e circuladas na internet. Uma característica da cultura digital pós-massiva onde o “antigo ‘receptor’ passa a produzir e emitir sua própria informação, de forma livre, multimodal e planetária.” (André Lemos, 2007). A proporção da fama da Hatsune chegou ao nível de primeiro lugar nas paradas japonesas de álbuns semanais e turnês de shows com apresentações da cantora por meio de holograma.

Outro espetáculo semelhante foi a inédita aparição do falecido rapper Tupac Shakur (não, não foi um espírito), por meio de um holograma, cantando ao lado do rapper Snoop Dogg, em uma apresentação no festival de Coachella, em 2012. Tais cantores “interagiram” em alguns momentos no palco, ao vivo, cantando a música “2 of America’s Most Wanted”.

Segue então, uma ilustração de como se deu esse efeito no palco:

O uso dos hologramas tem se tornado uma crescente no mercado de shows pela possibilidade dos shows póstumos, embora demande custos ainda mais altos na produção. No contexto brasileiro, em 2013, houve também uma apresentação do tipo holográfico com a imagem do cantor Renato Russo e uma outra com a representação do Cazuza.

Visto que “o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual.” (Pierre Levy, 1995), a utilização de aparatos tecnológicos como o holograma nos shows é uma tentativa do campo cultural artístico de oferecer a aura de um espetáculo ao vivo. Neste caso, o esforço é ainda maior devido aos aspectos exclusivos do artista e em questão.

“Fazer as coisas ‘ficarem mais próximas’ é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibilidade.” (Walter Benjamin, 1955)

Ainda que o show aconteça, o que está em jogo é a característica comum das apresentações: a interação autêntica. Fãs invadindo palcos para abraçar os artistas, cartazes, gritos dos fanáticos, um “tchau” do cantor para um fã específico, o autógrafo, a atenção do vocalista, todas essas coisas seriam impraticáveis. Tais coisas fazem parte da expectativa do público ao ir em um espetáculo. Embora haja a possibilidade de ver ou rever um artista, a apresentação estaria no campo da reprodução, pois não considera as metamorfoses que acompanham uma banda ou cantor.

Se a reprodução é algo que está intrínseco na sociedade pós-moderna, seria pressentido que em algum momento ela assumiria um aspecto mais ousado em um show. Neste caso alguém que performa algo no palco. Seria então uma espécie de paradoxo, uma vez que um apreciador busca em um show aquilo que as plataformas de streaming não podem oferecer.




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