Há ALGO entrando no RITMO de quem faz ARTE

Um quadro pintado por um algoritmo criado por um coletivo de franceses, foi vendido pelo valor de 432 mil dólares (aproximadamente 1,5 milhões de reais) e se tornou a primeira obra de arte realizada com inteligência artificial (IA) a ser comercializada em uma importante casa de leilões nos EUA.  No quadro, que é emoldurado em ouro, há o retrato de um homem vestido de preto rosto borrado, e no lugar da assinatura de um artista, há uma fórmula matemática. O processo de criação se baseia em um algoritmo que produz imagens a partir de um banco com mais de 15 mil retratos feitos entre os séculos XIV e XX. Mas de fato esse quadro pode ser considerada uma obra de arte? Segundo as autoras Jurno e DalBen os algoritmos são simplesmente uma formula matemática criada por humanos para procedimentos codificados ou softwares, o que levanta uma controvérsia a respeito do que pode ser considerado arte e se a nossa relação criativa com a arte é de fato uma das características que nos faz humanos.

Uma mulher diante do ‘Portrait d’Édouard Belamy’, criado por um algoritmo, na sala Christie’s de Nova York. TIMOTHY A. CLARY

Outro exemplo de produção artística de/com algoritmos é a obra do programador sueco Roger Alsin que resolveu brincar com alguns algoritmos. Ele criou um pequeno programa que evolui cadeias de “DNA digital” para tentar recriar (ou copiar da melhor forma possível) a Monalisa de Da Vinci usando apenas 50 polígonos. Após 904.314 gerações, o algoritmo genético de Alsin chegou a uma imagem bastante próxima da original.

Monalisa feita por algorítmo

Um outro exemplo inusitado é o Aican (Artificial Intelligence Creative Adversarial Networks), que estreou sua primeira exposição artística em 2018, nas cidades de Los Angeles e Frankfurt. Aican é um algoritmo computacional, baseado em redes neurais, treinado para ser artista. As suas imagens não são meras reproduções ou exercícios. Ao contrário, ele produz a partir de seu repertório e inova, rompendo com escolas anteriores. O robô é fruto do trabalho de Ahmed Elgammal e sua equipe, ligados ao Laboratório de Arte e Inteligência Artificial da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey. Aican foi concebido para criar dentro de limites técnicos a que pessoas estão submetidas. Saiu-se bem. Em uma pesquisa, as suas obras foram consideradas de autoria humana por mais da metade dos entrevistados na exposição. Boa parte deles sentiu-se tocada pelo que viu e até julgou as pinturas superiores a de artistas reais.

Quadros da exposição do AICAN

Apesar de a assinatura na tela leiloada na França ser uma fórmula matemática que demonstra a relação algorítmica, é claro que por trás do algoritmo há sempre uma mão humana. Diakopoulos em citação contida no artigo da Jurno e da DalBen apresenta que “A ética e transparência algorítmica devem, portanto, considerar os algoritmos como objetos criados por humanos e levar em conta as intenções, de grupos ou processos institucionais, que influenciaram o design, assim como a agência de atores humanos na interpretação do output em processos superiores de tomada de decisões.” O que nos remete a questões sobre quem é de fato o autor da obra: o algoritmo que a gerou ou a pessoa que programou o algoritmo?

A autoria da foto é do fotógrafo ou da câmera?

Entretanto o algoritmo é visto como uma ferramenta a ser usada por artistas e programadores, do mesmo modo que uma câmera é utilizada por fotógrafos. Além do código, é preciso considerar o material utilizado na construção do banco de dados, bem como as características finais da obra gerada. Se as imagens que compõem o banco possuem direitos de autor e a obra final apresenta semelhanças claras com essas imagens, podem surgir conflitos legais a respeito dos direitos da obra. E se caso ocorresse um processo de direito autoral para uma obra feita através do algoritmo, de quem seria a culpa? E na produção do quadro, o artista é o coletivo francês ou o algoritmo? Os direitos autorais ficam a cargo de quem? O dinheiro do arremate com certeza não foi depositado na conta do algoritmo.

De qualquer modo, mesmo o algoritmo criando a imagem, foram pessoas que decidiram fazer isso, que decidiram imprimir em uma tela, assiná-lo com uma fórmula matemática e colocá-lo em uma moldura dourada. A Inteligência artificial baseada em algoritmos, mesmo criando arte, não está nem perto de chegar no ritmo da inteligência humana como em casos mostrados nas ficções científicas Star Wars e Eu Robô. Os algoritmos ainda são uma cópia tosca e simplificada de nós mesmos, criada por nós mesmos.

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