A Arte é disputa de poder

“que nada desfaz, nem
o capataz
nem a solidão
nem estupro corretivo contra sapatão
os complexo de contenção:
hospício é a mesma coisa que presídio é a mesma coisa que escola
é a mesma coisa que prisão
que a mesma coisa de hospício
é a mesma coisa que as políticas uterinas de extermínio
dum povo que não é reconhecido como civilização
Tatiana nascimento

O poema de Tatiana Nascimento, musicado por Luedji Luna em Iodo + NowFrágio parece valioso para ilustrarmos, no campo das narrativas audiovisuais, certa noção de controle enquanto instância de disciplina dos corpos, que em muito dialoga com a analítica do poder desenvolvida por Michael Foucault em sua incisiva crítica a uma epistemologia ocidental, mobilizada e agenciada por discursos em torno de dados ordenamentos sociais. Sob essas lentes, por exemplo, aqueles “hospício, presídio, escola…” não se configuram meramente enquanto estruturas punitivas; antes, o caráter de eficiência nas tramas de que emerge o poder, parecem se realizar, para além do que poderíamos chamar de um vetor linear e hierarquizado (de cima pra baixo) mas, sobretudo, a partir de diversos, interrelacionados e intrincados polos, capazes, inclusive de serem pensados enquanto uma produção de corpos dóceis, úteis (ou não) e desejavelmente disciplinados.

Capa do álbum Um Corpo no Mundo, Luedji Luna (2018)

Parece coerente presumir, contudo, que essa abordagem clínica foucaultiana abre, ao menos no que se refere à sociedade ocidental, uma perspectiva que lançou, decisivamente o sujeito da modernidade em simultâneas tensões que convoca, ou pode convocar, não somente uma condição de opressão, mas também de resistência. O que se depreende, portanto, de produções como o poema mencionado, não é somente uma paridade com terminologias e instâncias que são também tematizadas por Foucault, aleatoriamente. A provocação poética é aqui acionada pela sua potência em tensionar, por seus próprios recursos discursivos, sua localização histórica na microfísica do poder.

Ainda aproveitando a “caixa de ferramentas” de Foucault, também nos parece útil procurar uma aproximação de um outro empreendimento presente em sua obra, relacionando-a ao modo contemporâneo como podemos entender uma outra noção que muito está ligada aos processos que discutimos até este ponto: a Biopolítica e, em paralelo, o conceito de Biopoder, intimamente relacionados. Para o pensador, esse movimento que se instaura na modernidade, conforme a instrumentalização da vida se converte em objeto de ordem política, e, portanto, sujeitas aos mais interesses no governo dos corpos.

MAS E AÍ?

Esses temas, então, apresentam significativa relevância e atualidade na apreensão de fenômenos atuais, em que as tecnologias e os sujeitos, de algum modo, corroboram um quadro social não menos do que indissociáveis um do outro, assim como também atrelados aos exercícios da sexualidade e dos saberes.

Se, de posse dessas reflexões concordarmos que discursos a respeito de corporeidade e mesmo da condição de existência do sujeito são particularmente disputados pela população negra, mais ainda aquela dissidente de uma sexualidade hegemônica e heteronormativa, podemos trabalhar,  ainda com a contribuição trazida por Deleuze a respeito de como tais reconfigurações estão relacionadas a outras tecnologias de controle, que são assim, inerentes à uma Sociedade de Controle em que, segundo sustento, encontra nesses marcadores raciais e de gênero fortes possibilidades de pressão.

Frame do Videoclipe Human, Sevdaliza (2016)

Posto isso, nossa curadoria do dia propõe tomar artistas distintos, que expressam suas concepções sobre controle e sociedade em suas obras, segundo seus modos próprios de se fazer, suas plataformas e formatos artísticos que provocam essas grandes questões. A Cantora Irani-holandeza Sevdaliza , que apresenta no videoclipe de sua obra Humans uma narrativa em que a representação de um corpo não humano, é sujeito à observação pelos que, ali, poderíamos, como exercício interpretativo, considerar como caricaturas de sociedade de controle.

O Também artista Boogie, por sua vez, constrói em seu videoclipe “Nigga Nerds” uma forte cena catártica, onde suas narrativas, vivências e corporeidade se encontram expostos a um “Paredão de Rostos Brancos”, dentro de um museu ficcional, a partir do qual se colocam, por meio da musicalidade, movimentos discursivos marcadamente contestatórios e informados pela raça.

Vale destacar o lugar que Boggie ocupa no museu. Ele se encontra  no centro…. então a racialidade subverte a posição do vigilante e do vigiado. Sevdaliza, por seu turno, está no centro de uma arena, negociando sentidos a partir do lugar da desumanização a que está relegada a androginia. Não se trata simplesmente de uma exercício explícito de repressão. Mais se sugerem, aqui, outros mecanismo de vigilância, sujeição e disciplina. Procedimentos que não poderiam ser tomados como absolutos, à medida em que esses corpos não parecem obedientes, ou passivos. Ao contrário, instauram uma posição de confronto.

Esse lugar avaliativo – também valorativo -, presente em ambos os vídeos, é justamente onde a arte é convocada na relação de poder enquanto contraponto. Ela se coloca, deste modo, enquanto campo de disputa. Nos exemplos citados, a relação de racialidade, o olhar  branco sobre corpos negros, localiza esses corpos de forma simbólica. É importante observar, nessas produções, uma crítica que se faz, enquanto arte, no nível da linguagem metafórica.

É somente compreendendo a historicidade  das estruturas sociais e suas complexas configurações, que a relação com esse aspecto racial faz sentido. Isto é, se a alusão à violência  do tiro no corpo negro diz de uma gestão da vida (ou mais adequado seria dizer da morte) desse sujeito, faz sentido que essas imagens remetam a própria noção de biopoder, que ordena tanto as formas de disciplinar a vida quanto a morte.

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